Meio Ambiente

O papel da gestão de resíduos na estratégia ambiental das empresas

O papel da gestão de resíduos na estratégia ambiental das empresas A gestão de resíduos se consolidou como um dos principais pilares de responsabilidade ambiental e social dentro das empresas, especialmente após a Lei nº 12.305/2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Essa lei introduz princípios importantes, como a responsabilidade compartilhada, a não geração e a redução de resíduos na fonte, a logística
reversa e a destinação final ambientalmente adequada.


Dentro desse contexto, a gestão de resíduos deixa de ser apenas uma obrigação legal e torna- se tema essencial para a agenda ESG — primeiramente na dimensão ambiental (E), pela diminuição dos impactos ao meio ambiente; na dimensão social (S), ao melhorar a saúde e segurança das comunidades onde a empresa atua e gerar empregos na cadeia de reciclagem e tratamento; e também na governança (G), pois a adoção de políticas claras para a gestão de resíduos demonstra boa governança corporativa, transparência e conformidade legal.


A preocupação com os impactos da geração de resíduos é global. Hoje, empresas que desejam estar à frente no mercado e manter sua reputação precisam não só cumprir a legislação, mas integrar a gestão de resíduos aos seus processos internos, metas e cultura organizacional.

O exemplo mais popular de resíduo com valor econômico no Brasil é a latinha de alumínio. É comum escutar no dia a dia que “não há problema em deixar uma latinha na rua, alguém coleta”. Essa percepção corresponde à realidade: em 2024, 97,3% das latas de alumínio foram recicladas no país — a maior taxa do mundo.


Esse ciclo é um ótimo exemplo de economia circular funcionando na prática. A latinha não vira descarte — ela volta para a cadeia, movimenta renda para quem coleta, reduz o uso de matéria-prima nova e evita emissões desnecessárias. No fim, todo mundo ganha, inclusive o meio ambiente, já que o alumínio praticamente não perde qualidade e pode seguir sendo reciclado sem fim.


Porém, essa tendência não se repete com outros materiais. O valor econômico dos resíduos varia muito e, por isso, apenas cerca de 4% dos materiais com potencial de reciclagem são efetivamente reciclados no Brasil. Esse dado demonstra o tamanho da nossa responsabilidade e o desafio de avançar na gestão de resíduos em escala nacional e corporativa.


Nenhum sistema de gestão funciona sem as pessoas. A educação ambiental é um dos instrumentos mais poderosos para transformar comportamentos, tanto no ambiente escolar quanto no corporativo. Nas empresas, colaboradores bem informados podem aumentar a segregação correta, reduzir rejeitos, evitar riscos e contribuir diretamente para o cumprimento das metas ESG. Entre as ações eficazes estão:

  • Treinamentos sobre separação de resíduos
  • Aulas e campanhas sobre reciclagem e reaproveitamento
  • Comunicação interna contínua (cartazes, avisos, informativos)
  • Monitoramento mensal da geração de resíduos
  • Criação de metas de reciclagem
  • Divulgação transparente dos resultados

A gestão de resíduos pode (e deve) ser estruturada de forma estratégica:

  • Identificação de onde cada resíduo é gerado.
  • Classificação conforme NBR 10.004 (Classe I, II A e II B).
  • Projeção de quantidades.
  • Análise da infraestrutura necessária (armazenamento, coleta, transporte).

Geração → segregação → acondicionamento → armazenamento temporário → coleta → transporte → destinação final.

Responsabilidades

  • Empresa: implementação total do PGRS, recursos, comunicação.
  • SGI: suporte, checklist para resíduos perigosos.
  • Serviços gerais: coleta interna, inspeção, limpeza.
  • Colaboradores: segregação correta, comunicação de anomalias.
  • Responsável técnico: manutenção dos registros, relatórios e rastreabilidade.
  • Fornecedores: destinação final adequada.
  • Ter a clareza de papéis fortalece o ‘’G’’ de governança no ESG.

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No fim das contas, nada avança sem acompanhamento. Medir o que está sendo feito ajuda a entender onde estamos acertando, onde dá para melhorar e como tornar tudo mais transparente para quem acompanha o processo. É a partir desses indicadores que a gestão de resíduos deixa de ser um esforço solto e passa a ter direção.

Abaixo, indicadores amplamente recomendados em estudos científicos e relatórios de sustentabilidade:

  • Quantidade total de resíduos gerados (kg/mês)
  • Geração de resíduos por colaborador
  • % de segregação correta (via auditorias internas)
  • Taxa de desvio de aterro (% de resíduos não encaminhados ao aterro)
  • Quantidade (kg) destinada à logística reversa
  • Taxa de reciclagem (%)
  • Redução anual da geração de resíduos
  • Emissões evitadas (CO₂ eq.) por reciclagem ou reuso
  • % de resíduos perigosos destinados corretamente
  • Índice de reaproveitamento interno
  • Número de auditorias/inspeções internas realizadas
  • Número de não conformidades (RNC) relacionadas a resíduos
  • MTRs emitidos e CDFs recebidos
  • % de fornecedores regularizados ambientalmente
  • Existência e atualização anual do Relatório de Gerenciamento de Resíduos

Esses indicadores foram recomendados por pesquisas publicadas na Journal of Cleaner Production, Waste Management, Ambiente & Sociedade, Revista Gestão & Produção.

A gestão de resíduos se torna estratégica justamente porque não fica limitada ao discurso ambiental. Quando feita de forma consistente, ela acaba impactando a empresa inteira: reduz gastos desnecessários, evita problemas que poderiam virar dor de cabeça no futuro, como multas e passivos, e ainda aproveita melhor tudo o que já faz parte da rotina produtiva. É uma mudança que se reflete tanto na operação quanto na maneira como a empresa se posiciona.

Também fortalece a reputação corporativa, já que stakeholders valorizam organizações transparentes, responsáveis e comprometidas com práticas consistentes, e a gestão de resíduos é um dos critérios mais observados em avaliações ESG. Além disso, quando a empresa organiza bem seus resíduos, o próprio ambiente de trabalho muda: tudo fica mais limpo, mais prático e mais fácil de manter, o que naturalmente ajuda na produtividade do dia a dia. Essa organização também reduz riscos menos chances de acidentes, menos possibilidade de contaminação e menos problemas legais. No campo ambiental, a reciclagem e o reaproveitamento fazem diferença real nas metas climáticas, já que evitam emissões desnecessárias e diminuem o uso de novos recursos.

E tem ainda o impacto social, que muitas vezes passa despercebido, mas é enorme: ao fortalecer cooperativas e incluir catadores na cadeia, a empresa ajuda a gerar renda e movimentar uma rede de trabalho que depende diretamente dessa estrutura funcionando bem.
Dessa forma, a gestão de resíduos não é apenas uma responsabilidade ambiental, mas um instrumento de competitividade, inovação e governança empresarial.

A gestão de resíduos, quando incorporada ao dia a dia da empresa, deixa de ser apenas um procedimento técnico e passa a fazer parte da cultura. É nesse ponto que ela realmente mostra seu valor: quando os processos não acontecem só porque precisam acontecer, mas porque a organização entende o impacto que tem no ambiente, nas pessoas e na forma como se posiciona no mercado.

Empresas que enxergam seus resíduos como parte estratégica da operação começam a agir com mais consciência, a pensar no longo prazo e a construir relações mais sólidas com quem está ao redor colaboradores, parceiros, comunidades. Não é uma mudança que acontece de uma hora para outra, mas é uma mudança que transforma. Quanto mais natural for essa integração, mais sustentável e coerente a empresa se torna. No fim das contas, é sobre assumir responsabilidade e, a partir disso, seguir melhorando.

Henrique Capai

Graduando em Ciências Socioambientais pela UFMG, com atuação como estagiário na área de Sustentabilidade e Sistema de Gestão Integrada (SGI). Desenvolvo atividades voltadas à gestão socioambiental e à promoção de boas práticas de governança, acompanhando temas atuais de ESG e contribuindo para análises aplicadas ao contexto organizacional.

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