A transição energética costuma ser contada pela ótica da geração: mais solar, mais eólica e menos combustíveis fósseis. Mas há uma pergunta que o setor ainda responde pouco: de onde vêm, e para onde vão, os materiais que sustentam essa transição?
Segundo o Circularity Gap Report 2025, apenas 6,9% dos materiais que entram na economia global têm origem secundária. Ao mesmo tempo, cresce a demanda por cobre, lítio, níquel e terras raras. Nesse contexto, a economia circular no setor de energia ganha peso estratégico: ela ajuda a descarbonizar e a garantir acesso a recursos.
Neste artigo, você vai entender o conceito, conhecer as cinco principais aplicações da economia circular para empresas de energia e ver quais pontos regulatórios merecem atenção no Brasil (PNRS, ENEC, PLANEC e logística reversa).
O que é economia circular no setor de energia?
Economia circular no setor de energia é a aplicação de estratégias como extensão de vida útil, remanufatura, reciclagem e design para circularidade a ativos e materiais do setor, para reduzir extração, emissões e resíduos. Na prática, isso vale para turbinas, transformadores, compressores, painéis e baterias, ativos de longa duração que concentram materiais estratégicos para a transição energética.
Por que o modelo linear chegou ao limite
O modelo econômico dominante ainda é linear: extrair, produzir, usar e descartar. Ele depende de recursos finitos, gera grandes volumes de resíduos, perde valor econômico no descarte e transfere à sociedade os custos ambientais, as chamadas externalidades.
A ABNT PR 2030-1:2024 define economia circular como um sistema econômico que utiliza “uma abordagem sistêmica para manter um fluxo circular dos recursos, ao recuperar, reter ou agregar valor a esses recursos, enquanto contribui para o desenvolvimento sustentável”. O conceito dialoga com a família ISO 59000, publicada em 2024.
Quais são os três princípios da economia circular?
- Eliminar desperdício, resíduos e poluição desde o projeto;
- Manter produtos e materiais em uso pelo maior tempo possível;
- Regenerar sistemas naturais.
Nessa lógica, resíduo é uma falha de design do sistema, e não uma consequência inevitável da operação.
Qual a relação entre economia circular e descarbonização?
De acordo com o Global Resources Outlook 2024, do Painel Internacional de Recursos da ONU, a extração e o processamento de recursos naturais respondem por mais da metade das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE). Por isso, a descarbonização não depende apenas de energia limpa. Depende também de como produzimos, usamos e recuperamos materiais.
Em outras palavras: energia limpa + uso eficiente de materiais = descarbonização mais rápida.
Leia também: Gestão de riscos climáticos na energia: como proteger operações contra enchentes, secas e ondas de calor.
Por que a economia circular importa para empresas de energia?
O setor de energia é intensivo em ativos de longa duração, como turbinas, transformadores, compressores, painéis e baterias. Cada decisão sobre manter, reformar ou substituir esses ativos tem efeito direto sobre custo, emissões e geração de resíduos.
Bem estruturada, a economia circular gera valor para empresas de energia em cinco frentes:
- Redução de custos de aquisição, operação e destinação de resíduos;
- Resiliência da cadeia de suprimentos, com menor exposição à volatilidade de preços de insumos estratégicos;
- Novos modelos de negócio, como produto como serviço, contratos de performance e programas de retorno de equipamentos;
- Reputação e desempenho ESG, com reflexo em avaliações de investidores e financiadores;
- Preparação regulatória, diante de normas cada vez mais exigentes sobre resíduos e logística reversa.
Em vez de vender apenas equipamentos, fabricantes e operadores passam a vender desempenho ao longo do ciclo de vida. Por isso, a circularidade também é estratégia de negócio.
Quais são as aplicações da economia circular no setor de energia?
Estas são as cinco principais aplicações da economia circular no setor de energia:
1. Extensão da vida útil de ativos (retrofit e upgrade)
Manutenção avançada, retrofit e upgrade tecnológico prolongam a vida de turbinas, compressores e infraestrutura. Novos sensores, sistemas de controle e melhorias aerodinâmicas aumentam a eficiência sem exigir um equipamento novo. Mais vida útil significa menos extração, menos emissões e menos resíduos.
2. Remanufatura industrial
Componentes recuperados, remanufaturados ou recondicionados com padrão de fábrica reduzem o consumo de materiais e de energia, além dos custos. Para operar com segurança, a remanufatura exige controle de qualidade, rastreabilidade e atenção às licenças ambientais aplicáveis.
3. Reciclagem de materiais críticos da transição energética
Cobre, níquel, cobalto, grafite, lítio e terras raras são essenciais para a transição energética. A Agência Internacional de Energia (IEA), no relatório Recycling of Critical Minerals (2024), estima que ampliar a reciclagem pode reduzir entre 25% e 40% a necessidade de nova mineração até 2050. A agência aponta ainda que níquel, cobalto e lítio reciclados geram cerca de 80% menos emissões do que os de origem primária.
4. Design para circularidade (ecodesign)
Projetar pensando no fim de vida é o caminho mais eficiente. Isso inclui modularidade, reparabilidade, reciclabilidade, eliminação de substâncias perigosas e informações harmonizadas sobre os materiais usados. Um exemplo é a RecyclableBlade, da Siemens Gamesa, apresentada em 2021 como a primeira pá eólica reciclável para uso comercial em alto-mar.
5. Digitalização como facilitadora
Manutenção preditiva, monitoramento de ativos e gestão inteligente de dados permitem extrair mais valor de cada equipamento. A digitalização também apoia a rastreabilidade de materiais, base para decisões de reúso e reciclagem.
Primeiros passos para aplicar a economia circular na prática
- Mapeie os fluxos de materiais e resíduos por tipo de ativo;
- Identifique os materiais críticos da operação e da cadeia;
- Compare, com critérios técnicos e econômicos, retrofit versus substituição;
- Inclua critérios de circularidade nos contratos com fornecedores;
- Levante os requisitos legais aplicáveis a resíduos, logística reversa e licenciamento.
Quais leis de economia circular as empresas de energia precisam acompanhar no Brasil?
No Brasil, a agenda de economia circular avança com instrumentos que se somam à legislação de resíduos já existente. Os principais marcos são:
| Norma | O que estabelece |
| Lei nº 12.305/2010 (PNRS) | Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, com responsabilidade compartilhada, logística reversa e ordem de prioridade (não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento e disposição final adequada). |
| Decreto nº 12.082/2024 | Institui a Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC). |
| Plano Nacional de Economia Circular (PLANEC) 2025–2034 | Aprovado pelo Fórum Nacional de Economia Circular em 2025, com 18 objetivos e mais de 70 ações estratégicas. |
| Decreto nº 12.688/2025 | Estrutura a logística reversa de embalagens plásticas, com metas de recuperação e de conteúdo reciclado. Para empresas de grande porte, a meta de conteúdo reciclado começa em 22% em 2026, com aumento progressivo. |
Para o setor de energia, essas normas se somam a regras específicas já conhecidas, como as de pilhas e baterias, eletroeletrônicos e óleos lubrificantes usados ou contaminados, que alcançam desde baterias de armazenamento até o óleo isolante de transformadores. Para aprofundar, veja como funciona a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida do produto e o que muda na logística reversa de embalagens.
A tendência é clara: regulações ambientais mais rigorosas, pressão por descarbonização e uso crescente da avaliação do ciclo de vida de produtos e serviços. Sem gestão estruturada de requisitos legais, iniciativas circulares podem se transformar em passivo. É o caso de uma remanufatura sem licença adequada ou de um resíduo perigoso destinado sem controle.
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Leia também: ABNT NBR 20250:2026 e o Programa Selo Verde Brasil.
Como implementar a economia circular em uma empresa de energia?
Implementar a economia circular no setor de energia exige método. Quatro etapas ajudam a transformar intenção em resultado:
- Diagnóstico de Maturidade ESG: mostra em que estágio a empresa está em práticas ambientais, sociais e de governança e organiza um roadmap de evolução.
- Estudo de determinação de temas materiais: identifica se resíduos, materiais críticos e cadeia de suprimentos são temas materiais para o negócio e para as partes interessadas, inclusive na perspectiva da dupla materialidade.
- Plano de ação ESG: com base no diagnóstico ESG e no estudo de temas materiais, define as ações que devem ser adotadas para a organização transformar intenção em estratégia ESG real, concreta e rastreável.
- Sistema CAL®: identifica e monitora continuamente a legislação aplicável à operação, incluindo novas normas de economia circular e logística reversa, com alertas vinculados a planos de ação e gestão de evidências.
Juntas, essas etapas conectam a estratégia ESG e de circularidade à conformidade legal, que é o alicerce de qualquer agenda ESG consistente.
Perguntas frequentes sobre economia circular no setor de energia
O que é economia circular no setor de energia?
É a aplicação de estratégias como extensão de vida útil, remanufatura, reciclagem e design para circularidade a ativos e materiais do setor, para reduzir extração, emissões e resíduos.
Existe lei de economia circular no Brasil?
O Brasil conta com a Estratégia Nacional de Economia Circular (Decreto nº 12.082/2024) e com o PLANEC 2025–2034, que se somam à PNRS (Lei nº 12.305/2010) e aos decretos de logística reversa, como o Decreto nº 12.688/2025, de embalagens plásticas.
Quais são as principais aplicações da economia circular no setor de energia?
As cinco principais são: extensão da vida útil de ativos, remanufatura industrial, reciclagem de materiais críticos, design para circularidade e digitalização.
Por que reciclar materiais críticos é importante para a transição energética?
Segundo a IEA (2024), ampliar a reciclagem pode reduzir entre 25% e 40% a necessidade de nova mineração até 2050. Além disso, níquel, cobalto e lítio reciclados geram cerca de 80% menos emissões do que os de origem primária.
Como a economia circular se relaciona com ESG?
Ela impacta temas materiais como clima, resíduos e cadeia de suprimentos e influencia indicadores ambientais, a gestão de riscos, receita e a reputação da empresa.
Conclusão
A economia circular no setor de energia já está acontecendo e tende a se tornar padrão da indústria. Empresas que se antecipam a essa tendência reduzem custos, ganham resiliência e chegam mais preparadas às novas exigências regulatórias.
O desenvolvimento sustentável pressupõe energia limpa, uso inteligente de recursos, consumo e produção responsáveis e justiça social. A economia circular é um dos elos que conectam esses pilares.
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